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Quando a imprensa sergipana morde a língua: A Informação e o Mercado da violência

janeiro 31, 2011

Por Henrique Maynart*


Quem acompanha as manchetes do periódico Cinform já está familiarizado com o que há de mais nefasto e escatológico na imprensa sergipana. “Castração de estupradores: Uma idéia que dói nos bagos!”, “Pipita é mandado ao quinto dos infernos”, “Vagabundo mata pai a facadas!”, estas e tantas outras frases imbuídas de amor, candura e sangue, compõem o acervo mitológico daquele jornal semanal de maior tiragem de exemplares no estado de Sergipe.

As frases em negrito e as imagens “atraentes” evocam a atenção de todos nas manhãs de domingo e segunda-feira, nem precisa ler de fato o jornal ou acompanhar assiduamente a imprensa sergipana, basta passar perto de alguma banca de revista ou parar um instantinho no sinal vermelho, e lá estará uma capa do Cinform exalando enxofre e vomitando xorume. Alguns ficam atônitos, outros se excitam e muitos embrulham o estômago, este que já se encontra fragilizado devido à tradicional ressaca de segunda-feira, catalisada pelo chacoalho indescritível dos ônibus velhos e decadentes de Aracaju. Obra para Quentin Tarantino nenhum botar defeito, não é?

A manhã desta segunda-feira não poderia fugir do habitual, da espetacularização previsível de sempre.  Já no finalzinho da curva para atravessar o mês de Janeiro, o povo sergipano se depara com uma imagem da dona de casa Simone Vieira Soares, de 40 anos, vítima de lesão corporal praticada por seu ex-amante na última semana, mostrando parte de sua língua mordida e arrancada no destaque da primeira página do periódico. Degradante, imoral, inaceitável! Palavras e mais palavras, indignação e muita massa cinzenta para queimar.

Como chegar a tão baixo nível, como é possível desrespeitar, desconsiderar por completo a dignidade e integridade moral de um ser humano de forma tão naturalizada, normatizada e carimbada? Sabem por quê? Porque vende “que nem água!”, e quem paga a conta escolhe a música.  Importante ressaltar que a espetacularização da notícia não é privilégio do Cinform na imprensa sergipana, verdade seja dita. Quase todos os veículos da mídia “Serigyana” trabalharam o tema na base do espanto e do espalhafato. Porém, nenhum setor da imprensa sergipana atingiu tão elevado nível, galgando o verdadeiro “nirvana” às avessas da informação e do jornalismo de açougue.

Olhem que eu não estou falando do conteúdo original da matéria, do texto do jornal, produzido pelo repórter do Cinform. Precisamos dissociar a “instituição imprensa” do trabalhador da comunicação, do jornalista, do radialista que está vendendo a sua força de trabalho a serviço de uma determinada política editorial, envolvendo muitas vezes casos de assédio moral, censura prévia e desrespeito de seus direitos trabalhistas. Inclusive eu quero estender de antemão minha solidariedade ao repórter responsável pela matéria que, apesar de todo o trabalho de escutar as fontes e reproduzir suas versões, apurar e checar as informações, da preocupação em escrever e formatar um bom texto para o povo sergipano, este jornalista viu todo o seu trabalho ser ofuscado por uma escolha editorial apelativa e mercantilista da direção do jornal, tanto pela escolha da foto quanto pelo destaque que esta teve na capa do jornal. Uma imagem fala mais alto que mil palavras, mais do que tantos caracteres quiser, e foi ela que deu o tom da matéria do Cinform, por mais que texto escrito possa apontar o contrário.

Esta escolha editorial do Cinform não é nenhuma reinvenção da roda. A história da imprensa já apresenta estas medidas desde muito tempo, desde o surgimento do modelo “Penny Press” no século XIX até as experiências brasileiras do “jornalismo marrom”.

Estas experiências escancaram de forma brutal o caráter mercadológico da produção das informações. A notícia, no modelo de comunicação comercial, é formatada não pelo interesse público, mas por seu apelo à venda e pela política editorial do jornal, sem cair nesta baboseira infantil de defesa da imparcialidade. Imparcial é só sabão glicerinado!

Como discutir de forma profunda a questão da violência contra a mulher, tão gritante em Sergipe e no Brasil, como colocar a pauta das relações de gênero, a aplicação da lei Maria da Penha, a estrutura das delegacias especiais para grupos vulneráveis, a promoção de direitos e a auto-organização da sociedade civil, quando temos uma imprensa condicionada a vender a língua de quem quer que for para aumentar suas tiragens? Este é o papel da imprensa? Onde está o direito à informação e a comunicação?

Há um vertiginoso corte de classe nesta medida, na formação desta política editorial. Por exemplo, se a dona de casa Simone pertencesse à alta sociedade, fosse dona ou acionista de uma das empresas anunciantes do jornal (quem paga a conta escolhe a música, guardem isso!) ou exercesse atividade política institucional (fosse deputada, secretária de estado, etc), vocês acreditam mesmo que a sua imagem apareceria da forma como apareceu? De forma alguma! Aposto duas cervejas e uma porção de batata rústica do “Tio Maneco” como o tema seria tratado de forma distinta neste caso.

Por acaso algum veículo da imprensa nacional apresentou o quadro de saúde do vice-presidente José Alencar, debilitado há anos por um câncer no intestino, de forma escatológica, jogando imagens de cunho apelativo e ofensivo, apresentando o vice-presidenciável prostrado em uma cama com os pontos abertos do abdome? Não?  Quando o atual governador Marcelo Deda esteve enfermo durante o seu primeiro mandato, algum veículo da imprensa sergipana, por acaso, publicou qualquer imagem do governador em meio à quimioterapia, aos processos de recuperação e cura do tumor ou seja lá o que for? Não mesmo! Não publicou e nem deve publicar, pois a dignidade da pessoa humana deve ser resguardada e respeitada em qualquer hipótese, seja de quem for.

Agora, quando se trata de enquadrar os conflitos oriundos das classes populares, no intuito de fazer da notícia um espetáculo banhado a sangue, aí o negócio é liberado? Na hora de publicar a imagem de um paciente do Hospital de Urgência de Sergipe agonizando nas macas, expondo o ser humano em estado de completa fragilidade, aí pode mesmo? Transformar as agonias do povo sergipano em produto, em valor mercadoria e tratar da forma como bem entender está correto? É esse o modelo de comunicação que o povo sergipano precisa?

O direito a informação e a comunicação, tal como a liberdade de imprensa, é um elemento fundamental para garantirmos a efetivação de direitos e cidadania. Nós nunca teremos uma comunicação livre, democrática e plural, que respeite e valorize os trabalhadores da informação se não repensarmos este modelo de comunicação sujeito à espetacularização, à violência e à ausência de direitos.

 

Henrique Maynart é jornalista da Agencia Voz, comunicador popular e militante pela democratização da comunicação


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