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Expansão ou “Inchação”? A UFS entre a aparência e a essência

dezembro 3, 2010

*por Alexis Pedrão


A Universidade Federal de Sergipe continua firme no seu processo de expansão. Está inserida no contexto nacional da reforma universitária do governo Lula que instituiu o ENADE, o PROUNI, a Lei de Inovações Tecnológicas, o REUNI, o ENEM e tantas outras medidas que fazem parte da lógica geral de readaptação da universidade à nova etapa de acumulação e desenvolvimento da sociedade capitalista. A UFS não para de criar novos cursos, novos campi no interior e até a educação à distância já é referência por estar constituída em 15 pólos. Com as cotas desde 2010, passam a ter maior acesso também a este centro do saber, os estudantes de baixa renda, negros e pessoas com deficiência.

Somos a favor da democratização da educação. Mais verbas públicas, mais vagas, valorização dos trabalhadores da educação, condições dignas de ensino e aprendizagem com material didático e estrutura física, permanência para o estudante de origem popular, etc. Acontece que a realidade é outra. Por trás do discurso da UFS que antes tinha 10 mil alunos e agora ultrapassa os 20 mil, dos prédios novos e do campus da saúde em Lagarto, por exemplo, escondem-se inúmeros problemas. Que poucas vezes são ditos, quanto mais debatidos. Precisamos desmascarar esse processo de expansão perante a sociedade sergipana para que não criemos ilusões e falsas expectativas em relação a situação atual da universidade. Cerca de 83% dos jovens neste país estão fora da universidade. Somos responsáveis por essa realidade desigual e não podemos esconder a verdade: a expansão está muito longe de atender a demanda por vagas e ainda assim está sendo tocada de forma antidemocrática e irresponsável.

É difícil fazer essas denúncias. Mas é também uma necessidade. Não queremos nos acostumar com o discurso “é assim mesmo, é público!” ou então “começa ruim, mas depois melhora”. Estamos falando de educação e produção de conhecimento científico – é este o papel central da universidade. Falamos de desenvolvimento social e de soberania do povo brasileiro quando o debate é educação. Dessa forma, aceitar uma educação de “qualquer jeito” não deve ser o nosso norte. Direito é direito, ponto e pronto.

Por trás da fantasia

Ao abrir um dos jornais de grande circulação no estado, me deparo com a notícia: Odontologia na UFS – nota máxima no ENADE. Passeio pela cidade e vejo diversos outdoors (pago não sei com que verba) dizendo: “Direito, maior aprovação nacional no exame da ordem”. Chega de hipocrisia e propaganda de estatísticas. No primeiro semestre deste ano, os alunos de forma independente realizaram um ato e exigiram uma audiência pública com o reitor Josué Modesto para que o mesmo se pronunciasse sobre a situação dos cursos na UFS. No curso de Odontologia faltavam vários materiais, inclusive anestésicos. Em 2007 o curso chegou a paralisar. Em Direito, três disciplinas obrigatórias ficaram sem professor no período anterior. Já virou piada nos corredores a reforma da piscina que dura mais de dois anos impedindo as aulas dos estudantes de educação física. E o reitor: nada a declarar.

Esta é a situação do ensino. Podemos ainda cair para o campo da pesquisa e da extensão e aí sim tomaremos um susto. A maioria dos estudantes se forma sem nem saber o que significa esses dois termos, constitucionalmente garantidos, que integram o tripé ensino, pesquisa e extensão responsável pela função social da universidade pública. A universidade brasileira é responsável por 80% da ciência produzida nesse país, mas a participação dos estudantes nesse processo é pífia. A educação à distância, poderia muito bem se chamar ensino à distância, pois é somente esta parte que está ofertada para estes estudantes.

No que tange à assistência estudantil o quadro é ainda mais caótico. Estudar na universidade virou sinônimo de luta! Pegar um ônibus para chegar ao campus é uma tortura, enfrentar filas quilométricas no RESUN para comer um empanado de frango e procurar um livro na biblioteca e não achar é o cotidiano do universitário. Isso se ele não estudar em Itabaiana ou Laranjeiras que não existe restaurante universitário e transporte integrado com a capital. O PNAES – plano nacional de assistência estudantil – prevê uma série de obrigações para as instituições. Aqui na UFS, creche, moradia estudantil e férias para os bolsistas não existe.

Assim, aumenta um índice que nós não encontramos em nenhum relatório de gestão, documento oficial ou fala do reitor: o índice da evasão! O diretor do campus Itabaiana recentemente apresentou um estudo sobre as condições dos estudantes naquele campus e constatou um número exorbitante de estudantes que não estão conseguindo se formar no tempo ou estão abandonando o curso por falta de condições. Em Laranjeiras as turmas mais avançadas estão extremamente esvaziadas por conta da quantidade de desistências. Porque estas questões não vêm à tona? Qual o interesse em escamotear a realidade? A universidade continua dessa forma servindo à classe média e aos ricos que tem condição de se manter. O estudante pobre, trabalhador, do interior ou da periferia, ao entrar nesse espaço percebe rapidamente o quão excludente é a universidade pública.

Lutando por dias melhores

Os problemas da universidade não começaram com a expansão. Não podemos omitir o sucateamento praticado pelo governo FHC durante oito anos. O que não poderíamos imaginar é que em nome do discurso da “democratização do ensino”, o governo Lula manteria essa política de impulsionar a iniciativa privada e deixar a universidade pública à mercê de verbas enquanto remunera os banqueiros internacionais através dos juros da dívida externa – responsável por cerca de 30% das despesas da união. Existe inclusive uma CPI da dívida em andamento no congresso para apurar esses vultosos repasses do estado brasileiro.

O sonho da universidade pública, gratuita e de qualidade continua bastante distante para a juventude brasileira. Mas quem disse que seria fácil que a classe trabalhadora tivesse acesso a uma das principais instituições da sociedade? Por isso precisamos resistir a este processo de “inchação” que coloca o estudante para dentro, mas não se preocupa com a sua permanência e oferta um ensino de péssima qualidade, isto quando temos professores. E continuar lutando por dias melhores. Manter-se firme na luta para trazer a esperança de novos tempos. Aqui, cabe ressaltar o papel crucial desempenhado pelos estudantes.

O movimento estudantil ao longo da história sempre esteve a frente das principais lutas em defesa da educação pública para o povo. Num tempo de muitas adversidades e de fragilidade e fragmentação nas lutas sociais, o desafio é ainda maior. Mas o futuro depende de quem faz a história no presente. Se há esta consciência de que a universidade não anda tão bem como parece, vamos nos organizar para mudar essa situação. Vamos à luta em defesa de uma universidade transformadora. Que prime pela essência e não pela aparência. Uma universidade de fato para todos.

*Alexis Pedrão é estudante de direito da UFS, merendeiro escolar, militante do movimento estudantil e do Partido Socialismo e Liberdade.

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