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O caô da nova classe média

junho 17, 2010

Muito se tem falado sobre a “nova classe média” que se tornou maioria no Brasil de Lula.

Verdade ou mentira? Um pouco dos dois, o que dá margem a uma grande manipulação ideológica dos fatos, afinal a ideologia sempre se apóia em verdades parciais.

É verdade que o nível de vida da população melhorou? É óbvio que sim. Melhoraram os salários, melhorou a renda, o crédito, o emprego, aumentaram os auxílios estatais (Fome Zero e outros estaduais e municipais semelhantes). Isso tudo se refletiu no aumento do consumo e na melhoria da condição de vida para muitos. Mais casa própria, mais reformas nos barracos, mais carros, motos, eletrodomésticos, etc. Não vou citar números e pesquisas, eles estão disponíveis aos montes por aí. E, além disso, qualquer um que more na periferia ou viva entre pobres pode checar isso empiricamente.

Ignorar esses fatos é pura imbecilidade, é escolher a cegueira. A direita e alguns esquerdistas se irritam muito com esses fatos. Irritam-se porque os fatos, as “condições objetivas”, favorecem Lula, garantem sua popularidade e provavelmente elegerão Dilma. De nada vale dizer que o PT não fez “mudanças estruturais”. Não fez mesmo! E penso que nem prometeu isso. Importa para massa – mesmo que opinemos de maneira diferente – que as coisas mudaram para melhor e são sentidas assim.

Negar ou minimizar o impacto econômico objetivo na vida das pessoas e o impacto na subjetividade, na auto-estima de boa parte da população é um exercício de ideologização árduo, ainda que feito pro gente “de esquerda”, afinal ideologia é, sobretudo, falseamento da consciência sobre realidade. E a esquerda que insiste nesse caminho paga e pagará um preço: perda de respaldo popular e, conseqüentemente, a “guetização” em nichos da classe média, intelectuais, estudantes, militantes liberados profissionais, enfim, gente com discurso classista, mas bem distante da vida da classe. O que por sua vez resulta em dificuldades de mobilização, luta fratricida, acusações de traição, rachas e disputas mesquinhas até mesmo pelo controle de sites na internet.

Mas vou deixar isso tudo de lado. A idéia desse texto é refletir um pouco sobre o que é a porra da classe média? Prá começar, historicamente esse foi o nome – middle class – que os ingleses deram para o que na França se chamava simplesmente bourgeoisie. A middle class era a classe do meio numa sociedade dividida entre os de cima (nobres) e os de baixo (trabalhadores pobres e camponeses). Em síntese, middle class era a burguesia, em ascensão na época.

Não vou aqui recuperar a história do termo, mas o que temos hoje é a eliminação total dos conceitos que definiam as classes sociais. Desapareceram as relações sociais entre as classes, não há menção alguma a proprietários e trabalhadores. Tudo se limita ao nível de renda das pessoas, é ele que define a classificação das pessoas. Assim, a “respeitada” Faculdade Getúlio Vargas (FGV) classifica as pessoas em:
Pobres, Remediados, Classe Média e Elite. Vejam a tabela abaixo:


http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI10070-15228,00-A+NOVA+CLASSE+MEDIA+DO+BRASIL.html

Por isso eu vou apelar aqui para a Constituição da República Federativa do Brasil! Isso mesmo Sicilio Rocco vai se basear na lei! E como a lei muda lentamente em alguns aspectos temos um “fóssil conceitual” muito útil para essa reflexão, trata-se do Capítulo II, Dos Direitos Sociais, artigo 7º, inciso IV. É a lei que define o Salário mínimo necessário. Vejam que maravilha:

“[…] salário mínimo fixado em lei, nacionalmente unificado, capaz de atender às suas necessidades vitais básicas e às de sua família, como moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social, reajustado periodicamente, de modo a preservar o poder aquisitivo, vedada sua vinculação para qualquer fim”

Desde sempre se entendeu que essa lei definia o limite de sobrevivência digna para um trabalhador e sua família. Ou seja, abaixo disso estava a miséria, a partir desse limite, começava a pobreza.

Pois bem, como muitas leis no Brasil , essa permaneceu sem regulamentação detalhada, tornou-se peça figurativa e o salário-mínimo real sempre esteve condicionado ao que governo e patrões diziam ser possível, que obviamente sempre foi insuficiente para cobrir as despesas descritas em lei.

Mas há quem se dedique a tarefa de calcular o valor do salário-mínimo legal. Há tempos o DIEESE faz isso da seguinte forma:

“Foi considerado em cada mês o maior valor da ração essencial das localidades pesquisadas. A família considerada é de dois adultos e duas crianças, sendo que estas consomem o equivalente a um adulto. Ponderando-se o gasto familiar, chegamos ao salário mínimo necessário.”
(http://www.dieese.org.br/rel/rac/salminMenu09-05.xml)

Ou seja, o Instituto insiste em calcular o “mínimo ideal” e mostrar sua discrepância em relação ao vigente de fato. A última atualização (maio 2010) conclui que ele deveria ser de R$2.157,88.

Sempre que eu cito esse valor numa conversa a reação da maioria é de admiração. Já ouvi coisas do tipo – Com um salário desses eu seria rico! E eu respondo: – Não, aí você começará a ser pobre, seu miserável do caralho! (Freud e Young também já deram seus tapões em histéricas, e normalmente funcionava…)

De um lado há uma lei na constituição e há uma pesquisa séria que calcula os valores. Do outro lado há a FGV, para quem os miseráveis não existem; os pobres passam a remediados quando ganham mais de R$768,00; você adquire o passaporte para a classe média com apenas R$1064,00 e se puder, passa para a elite com R$4591,00!

E assim, abaixando um pouco a faixa de renda aqui, aumentando ali, você consegue produzir o milagre de ter um país no qual 52% das pessoas fazem parte da classe média! Que maravilhas a estatística faz pelo Estado, aliás o nome original era estadística, saber realmente voltado para o Estado.

Para completar as pessoas se portam de uma maneira curiosa que só reforça a estatística da FGV e a propaganda do governo. O miserável raramente se assume como tal, na sua imaginação ele é apenas um pobre. O pobre igualmente se envergonha de ser um pobre, e normalmente se classifica como “remediado”, “classe média baixa”. Na outra ponta, o rico também nega sua condição de classe! Quase sempre se classifica com classe média, “classe média alta”, “bem de vida” (quem seriam os de cima?), parece ter certa vergonha de dizer simplesmente “sou rico”, ou seria uma pontinha de culpa mesclada com medo de assalto e seqüestro?

O fato é que todos desejam ser classe média, essa ampla faixa onde a estatística pôs a maioria e onde a maioria se coloca voluntariamente. Não é quase a igualdade social!?

Só pessoas amargas como Sicilio Rocco para insistir contra os dados “científicos” da FGV, contra a vontade da maioria e dizer que não temos nem mesmo uma maioria de “legalmente pobres”.

E apesar disso, a impressão é que a vida melhorou, pois em terra de cego quem tem Lula é Dilma.

Fonte: http://petardo11.blogspot.com/2010/06/muito-se-tem-falado-sobre-nova-classe.html
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